domingo, 20 de novembro de 2011

A Alegria na Tristeza

O título desse texto na
verdade não é meu,
e sim de um poema do uruguaio
Mario Benedetti.
No original,
chama-se "Alegría de la tristeza"
e está no livro
"La vida ese paréntesis"
que, até onde sei,
permanece inédito no Brasil.

O poema diz que a gente
pode entristecer-se
por vários motivos ou por
nenhum motivo aparente,
a tristeza pode ser por nós
mesmos ou pelas dores do mundo,
pode advir de uma palavra
ou de um gesto,
mas que ela sempre aparece
e devemos nos aprontar
para recebê-la,
porque existe uma alegria
inesperada na tristeza,
que vem do fato de ainda
conseguirmos senti-la.

Pode parecer confuso
mas é um alento.
Olhe para o lado:
estamos vivendo numa era
em que pessoas matam em
briga de trânsito,
matam por um boné,
matam para se divertir.

Além disso,
as pessoas estão sem dinheiro.
Quem tem emprego,
segura.
Quem não tem,
procura.
Os que possuem um amor
desconfiam até da própria sombra,
já que há muita oferta
de sexo no mercado.

E a gente corre pra caramba,
é escravo do relógio,
não consegue mais ficar
deitado numa rede,
lendo um livro,
ouvindo música.
Há tanta coisa pra fazer
que resta pouco tempo
pra sentir.

Por isso,
qualquer sentimento é bem-vindo,
mesmo que não seja uma euforia,
um gozo,
um entusiasmo,
mesmo que seja uma melancolia.

Sentir é um verbo que se
conjuga para dentro,
ao contrário do fazer,
que é conjugado pra fora.

Sentir alimenta,
sentir ensina,
sentir aquieta.
Fazer é muito barulhento.

Sentir é um retiro,
fazer é uma festa.
O sentir não pode ser escutado,
apenas auscultado.
Sentir e fazer,
ambos são necessários,
mas só o fazer rende grana,
contatos, diplomas, convites,
aquisições.

Até parece que sentir não
serve para subir na vida.

Uma pessoa triste é evitada.
Não cabe no mundo da
propaganda dos cremes dentais,
dos pagodes, dos carnavais.

Tristeza parece praga,
lepra, doença contagiosa,
um estacionamento proibido.

Ok,
tristeza não faz realmente
bem pra saúde,
mas a introspecção é um
recuo providencial,
pois é quando silenciamos
que melhor conversamos
com nossos botões.

E dessa conversa sai luz,
lições, sinais,
e a tristeza acaba saindo também,
dando espaço para uma alegria
nova e revitalizada.

Triste é não sentir nada.

TEXTO: Martha Medeiros
* * * * *
Texto lido no programa
"Madrugada Viva Liberdade FM"
no quadro
"Momento de Reflexão"
no dia 24 de Novembro de 2.011.

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