domingo, 27 de novembro de 2011

Sobre estar sozinho

Não é apenas o avanço tecnológico
que marcou o inicio deste milênio.
As relações afetivas também
estão passando por
profundas transformações e
revolucionando o conceito
de amor.

O que se busca hoje é
uma relação compatível com
os tempos modernos,
na qual exista individualidade,
respeito,
alegria e prazer
de estar junto,
e não mais uma relação
de dependência,
em que um responsabiliza o outro
pelo seu bem-estar.

A idéia de uma pessoa
ser o remédio para nossa felicidade,
que nasceu com o romantismo,
está fadada a desaparecer
neste início de século.

O amor romântico parte
da premissa de que somos
uma fração e precisamos
encontrar nossa outra metade
para nos sentirmos completos.

Muitas vezes ocorre
até um processo
de despersonalização que,
historicamente,
tem atingido mais a mulher.
Ela abandona suas características,
para se amalgamar ao
projeto masculino.

A teoria da ligação entre opostos
também vem dessa raiz:
o outro tem de saber fazer
o que eu não sei.

Se sou manso,
ele deve ser agressivo,
e assim por diante.
Uma idéia prática de sobrevivência,
e pouco romântica,
por sinal.

A palavra de ordem deste
século é parceria.
Estamos trocando o amor
de necessidade,
pelo amor de desejo.

Eu gosto e desejo a companhia,
mas não preciso,
o que é muito diferente.

Com o avanço tecnológico,
que exige mais tempo individual,
as pessoas estão perdendo
o pavor de ficar sozinhas,
e aprendendo a conviver
melhor consigo mesmas.

Elas estão começando a
perceber que se sentem fração,
mas são inteiras.
O outro,
com o qual se estabelece um elo,
também se sente uma fração.
Não é príncipe ou salvador
de coisa nenhuma.
É apenas um companheiro
de viagem.

O homem é um animal
que vai mudando o mundo,
e depois tem de ir se reciclando,
para se adaptar ao mundo
que fabricou.

Estamos entrando na era
da individualidade,
o que não tem nada a
ver com egoísmo.
O egoísta não tem
energia própria;
ele se alimenta da energia
que vem do outro,
seja ela financeira ou moral.

A nova forma de amor,
ou mais amor,
tem nova feição e significado.

Visa a aproximação de dois inteiros,
e não a união de duas metades.
E ela só é possível para aqueles
que conseguirem trabalhar
sua individualidade...

Quanto mais o indivíduo
for competente para viver sozinho,
mais preparado estará
para uma boa relação afetiva.

A solidão é boa,
ficar sozinho não é vergonhoso.
Ao contrário,
dá dignidade à pessoa.

As boas relações afetivas
são ótimas,
são muito parecidas com
o ficar sozinho,
ninguém exige nada de
ninguém e ambos crescem.

Relações de dominação
e de concessões exageradas
são coisas do século passado.
Cada cérebro é único.
Nosso modo de pensar
e agir não serve de referência
para avaliar ninguém.

Muitas vezes,
pensamos que o outro
é nossa alma gêmea e,
na verdade,
o que fizemos foi inventá-lo
ao nosso gosto.

Todas as pessoas deveriam
ficar sozinhas de vez em quando,
para estabelecer um
diálogo interno e descobrir
sua força pessoal.

Na solidão,
o indivíduo entende
que a harmonia e a paz de
espírito só podem ser
encontradas dentro dele mesmo,
e não à partir do outro.

Ao perceber isso,
ele se torna menos crítico
e mais compreensivo quanto
às diferenças,
respeitando a maneira de
ser de cada um.

O amor de duas pessoas
inteiras é bem mais saudável.
Nesse tipo de ligação,
há o aconchego,
o prazer da companhia
e o respeito pelo ser amado.

Nem sempre é suficiente
ser perdoado por alguém,
algumas vezes você tem de
aprender a perdoar
a si mesmo...

TEXTO: Flávio Gikovate
* * * * *
Texto lido no programa
"Madrugada Viva Liberdade FM"
no quadro
"Momento de Reflexão"
no dia 29 de Novembro de 2.011.

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