sábado, 16 de junho de 2012

É IMPOSSIVEL SER FELIZ SOZINHO...

Tenho insistido no fato
de que todos nós
temos uma sensação de buraco,
de que falta alguma coisa.
Temos, pois,
um sentimento de inferioridade
que é universal.

Ele está presente em todas
as pessoas,
inclusive naquelas que
se mostram autoconfiantes
e orgulhosas de si mesmas;
são apenas criaturas mentirosas,
além de competentes em
artes cênicas.

Foi a constatação dessa
sensação que levou o poeta a afirmar:
"é impossível ser feliz sozinho".
Ou seja,
a sensação da harmonia
que buscamos só poderá ser
encontrada a dois,
na união amorosa.

Essa foi também a posição
que assumi nos últimos vinte anos.
Defendi o amor romântico,
a aliança intensa e forte
entre um homem e uma mulher,
como o grande remédio para o desamparo
que nos acompanha.

Ressaltei que a sensação
de desamparo vinha aumentando,
pois,
até algumas décadas atrás,
o aconchego era resultado
da forte aliança que unia
as famílias em clãs.

As grandes famílias rurais,
cheias de filhos,
sobrinhos e tios,
crentes em Deus e que,
juntas com outras famílias,
formavam comunidades onde
todos se conheciam,
traziam grande atenuação
para o desamparo.

É claro que tudo tem um preço.
Nesses grupos não havia espaço
para a individualidade,
opiniões divergentes ou
excentricidades.

A vida nas grandes cidades
é hoje bem mais livre
e tolerante para
com o exercício de uma
forma pessoal de ser.
Por outro lado,
a sensação de solidão
cresceu muito.

Usamos essa palavra
– de forte conotação negativa
que provoca pavor só de ser pronunciada –
para definir a dor que deriva de
nos sentirmos incompletos.

Acho que a solidão
envolve também uma certa vergonha,
como se a pessoa sentisse
menos competente
para encontrar um parceiro.

Poderia, porém,
ser diferente:
talvez deveríamos ter orgulho
da nossa capacidade de ficar sós,
coisa difícil e que nem todo
mundo consegue.

O amor romântico apareceu
como o grande
neutralizador da solidão crescente,
que chegou com a industrialização
e com a migração para os
centros urbanos.

No passado,
o casamento se realizava
por meio de arranjos familiares;
agora, é fruto do amor,
da escolha voluntária dos jovens,
mais donos de suas vidas
e seus destinos.

O amor apareceu –
e foi louvado por todo mundo,
inclusive por mim –
como o grande remédio
para o nosso desamparo,
como algo que nos permite
sentir a completude
e a harmonia perdidas,
mas presentes em algum canto
na nossa memória.

Na prática, porém,
as coisas não vêm se passando
exatamente como prevíamos.

O conto de fadas,
no qual embarcamos,
tem esbarrado em vários
obstáculos.

O maior deles deriva de u
ma tendência para o crescimento
da nossa individualidade.

Continuamos sonhando
com o amor,
é verdade;
mas estamos cada vez
menos dispostos a fazer
concessões,
a ceder às pressões
do parceiro.

O desejo romântico quer o
par sempre junto,
ao passo que cada indivíduo
pode estar interessado em ir
para uma direção diferente.

Aí se trata uma inevitável
e cansativa luta pelo poder,
na qual ninguém fica
satisfeito.

É nesse ponto das
reflexões que me fiz uma pergunta:
somos mesmo incompletos ou
apenas nos sentimos assim?

Confesso que fiquei meio atrapalhado,
perturbado mesmo,
quando deparei com uma
resposta óbvia,
mas que jamais tinha me ocorrido.

A sensação de incompletude não é,
obrigatoriamente a expressão
de um fato.

O trauma do nascimento
nos marca e provoca
essa sensação.

Mas somos indivíduos
inteiros e completos.

Pensar assim poderá nos conduzir a
uma fascinante aventura.

TEXTO: Flavio Gikovate
* * * * *
Texto lido no programa
"Madrugada Viva Liberdade FM"
no quadro
"Momento de Reflexão"
no dia 20 de Junho de 2.012.

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