sábado, 23 de junho de 2012

O COLECIONADOR DE PROBLEMAS

Em uma aldeia onde haviam
muitos colecionadores.
Passavam a vida
colecionando objetos descartados
pelas outras pessoas.

Os colecionadores descobriram
que uma vez que se tenha
uma grande e variada quantidade
de artigos descartados,
eles se tornam valiosos novamente.

Um colecionador tinha uma
provisão esplêndida de
garrafas de vidro.

Ele chamava a atenção
pendurando algumas em árvores
e criando música batendo
com varas.

Outro colecionava sapatos
de todos os tamanhos.
Ele comentava o quanto
variava o tamanho e as formas
dos pés das pessoas.

Havia colecionador de panela,
colecionador de selos,
de taco de golfe
e colecionadores de chapéu,
de livros cômicos e colecionador
de cartão esportivo.

Na verdade,
era uma verdadeira coleção
de colecionadores.

Um dia um velho homem
chegou à cidade e vagando
pela aldeia perguntava onde
ficava a praça dos colecionadores.

Ele levava um grande pacote,
mas não parecia estar
carregado nem muito pesado.

Ele encontrou a praça dos
colecionadores e se alojou
em um canto.

Naturalmente,
os colecionadores descobriram
que havia um novo
colecionador na cidade,
e eles queriam saber o que
ele tinha no pacote.

Ele respondeu que nada
havia mas apenas seu almoço
e uma capa de chuva para
o caso de chover.

- Você quer dizer que não tem uma coleção?
- eles perguntaram -
Você não é um colecionador?

- Oh, sim. - ele respondeu -
eu sou um grande colecionador.
Mas o que eu coleciono
não cabe em um pacote
ou uma caixa.
Eu coleciono os problemas e as
preocupações das pessoas.

Esta era uma idéia estranha e
lhe pediram que explicasse.

- Bem, veja você,
eu descobri há muito
tempo que entre as coisas
que todos querem se livrar
existem as preocupações,
os problemas, fardos pesados,
tristezas, tempos difíceis -
todo este tipo de coisas que
jogam as pessoas para baixo e faz
suas vidas mais tristes.

Assim eu me ofereço para
colecionar estes problemas e elas
se sentem bem.

Não é simples?

Alguns dos colecionadores
pensaram que era uma convicção
tola e possivelmente isso era perigoso
à reputação de sua profissão.

O velho não
parecia prejudicar ninguém,
entretanto,
assim eles o deixaram só.

Logo apareceu alguém
e perguntou como
ele colecionava problemas,
e ele respondeu,
- Bem,
há algo provavelmente
em sua vida que o aborrece
agora mesmo -
um pouco de preocupação
que você tenha.

Me fale um pouco sobre isto e eu a
acrescentarei à minha coleção.

- Mas como isso me ajudará?
Você pode desaparecer com o
problema só porque lhe
falo sobre isto?

- Não, mas você se sentirá melhor.
Tente.

Assim a pessoa falou para
o velho sobre algo que era um problema.

Quando a história terminou,
o colecionador de problemas acenou
com a cabeça algumas vezes,
elevou as mãos como se erguesse
algo pesado e fingiu colocar
no pacote.

- Pronto!
Eu guardei este.
Como você se sente?
Perguntou.

A pessoa que tinha o problema respondeu:
- Estranho.
Me sinto bem.
Eu acho que posso controlar
o problema muito melhor agora.

Realmente funciona!

As palavras se espalham ao vento.
Logo havia uma multidão em volta do
colecionador de problemas.

Um dia,
uma mulher apareceu na aldeia
caminhando lentamente e com
considerável dificuldade.

Logo a levaram ao
colecionador de problemas.

Quando ele explicou a ela que tipo
de colecionador ele era,
ela começou a lamentar:
- Oh,
você não sabe quantas
problemas e pesados fardos
há neste mundo.
Eu venho de uma cidade onde há
mais problemas do que em
qualquer outro lugar.

Todos sofrem e ninguém tem
qualquer esperança.

E o pior é que as autoridades
da cidade prosperam passando
por cima dos problemas do povo.
É um lugar horrível,
desesperador.
Eu tive que partir.
Era a única esperança
que eu tinha.

O colecionador de problemas
ficou sério.

Se levantou e ergueu o pacote com
um gesto que era mais lento e mais
doloroso que o normal.

Depois de um longo silêncio,
falou lentamente.
- Eu tenho que ir até lá.

Os aldeãos e a mulher
fizeram um grande protesto.

Eles não queriam perder o
colecionador de seus problemas.
Tinham medo de como ficaria a
cidade e lhe imploraram
que ficasse.

O velho se escapuliu
no meio da noite.

Muito tempo se passou até que
um cansado jovem entrou na aldeia.
As pessoas sabiam,
sem perguntar,
que ele vinha da cidade.

Eles o ajudaram da melhor
forma que podiam,
e quando ele estava se
sentindo melhor,
lhe perguntaram se sabia do
velho que tinha partido para a cidade
várias semanas atrás.

- Conheci sim!
Este homem entrou quieto na cidade e,
no princípio,
ninguém o notou.
Então de vez em quando você
poderia vê-lo conversando com pessoas
- escutando principalmente.

Quando um pessoa terminava de falar,
ele curvava a cabeça e fazia
estranhos gestos com as mãos
e a pessoa começava a se
sentir melhor.

Pela primeira vez em um longo tempo,
as pessoas da cidade começaram a
se sentir melhor e ter um
pouco de esperança.

- Sim, nós sabemos.
Ele fez isso aqui também.

Respondeu um dos aldeãos.

- Bem,
não levou muito tempo
para as autoridades o notarem.
Lhe mandaram partir e deixar
de se intrometer nas vidas de
outras pessoas.
Ele simplesmente recusou.
Disse o jovem da cidade.

E com os olhos tristes e um nó na garganta,
continuou:
- Eles o colocaram na prisão,
mas lá ele colecionou os problemas
dos outros prisioneiros.

Finalmente,
as autoridades decidiram que ele
era uma ameaça subversiva
ao sistema.
Assim eles o executaram.

Os aldeãos ofegaram.
Alguns começaram a chorar.

- Eu sinto muito por lhes trazer
estas tristes notícias.
Ele também era meu amigo.

- É doloroso para nós,
você sabe.
Como faremos agora que
ele morreu?

De repente o rosto do jovem
ficou iluminado.
- A idéia ainda funciona!
Ele exclamou.
Colecionar problemas ainda funciona!
Você pode fazer isto para mim,
e eu posso fazer isto para você.
Ele só nos mostrou como fazer!

O jovem saltou,
cheio de energia e com força renovada.
- Estou voltando para a cidade!

- Mas o que fará você por lá?
- vários aldeãos perguntaram em harmonia -
Você ficou doido?
Lá existem muitos problemas.

- Exatamente! Exatamente!
- ele continuou -
É por isso que eu vou.

Aprendi a lição,
vou ajudar as pessoas a
se sentirem melhor.

Me tornarei um colecionador
de problemas!

O que tenho a fazer é simples:
basta ouvir as pessoas.
Fazer com que elas se abram,
desabafem e, assim, reflitam melhor,
sintam-se mais leves.
E hei de espalhar o que aprendi.
Hei de criar novos colecionadores
de problemas.

Ei você!
É, você que está lendo este texto!
Quer se tornar um colecionador
de problemas?

TEXTO: Léo Remington
TRADUÇÃO: Sérgio Barros
* * * * *
Texto lido no programa
"Madrugada Viva Liberdade FM"
no quadro
"Momento de Reflexão"
no dia 27 de Junho de 2.012.

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