terça-feira, 21 de janeiro de 2014

AS DORES ACABAM

É incrível, 
mas um dia toda dor acaba. 
É como acordar sem febre 
depois de noites de agonia. 
Você se pergunta distraída: 
Onde está a dor que 
eu deixei aqui? 
Foi embora, de repente, 
sem ser notada, sem alarde.

Um dia você percebe que 
alguma coisa parou de doer. 
Um dia você entende 
que não precisa mais daquela dor. 
Um dia você sente preguiça 
de sofrer e tem vontade 
de alongar a alma, 
estendê-la ao sol.

As dores acabam porque 
a vida é maior e mais teimosa. 
Quando se está no olho do furacão, 
no fundo do abismo, 
velando um ente amado, 
rolando na cama vazia, 
a dor parece eterna, 
presença maciça, definitiva, 
que tudo ocupa e devasta.

Ela fica ali, sentada no sofá, 
servindo-se do jantar, 
pulsando na outra metade do leito, 
rondando sua intimidade, 
compartilhando sua rotina. 
Lê seus livros, 
vai ao cinema com você, 
amiga íntima, inseparável. 
Torna-se familiar, 
corriqueira. Essencial. 
Reverenciada.

A dor é um dublê que ocupa 
o lugar deixado pela sua alma ferida, 
encolhida, retirada. 
Despojo de toda perda. 
Matéria feita de ausências.

Quando se está em dor, 
a frase que mais se ouve é: 
Vai passar... 
Nada como um dia após o outro ou então, 
O tempo cura tudo! 
Naquela hora, tudo soa ridículo, 
leviano, estúpido. 
Dá vontade de gritar, 
numa espécie de arrogância e 
vaidade às avessas: 
Você não conhece a minha dor. 
A minha dor é a maior 
do mundo e nunca vai passar!
Cuidado! A dor é aderente. 
Não se apegue demais, 
não se deixe seduzir.

As sombras não protegem, 
apenas escondem. 
Não se aprisiona a dor sem 
tornar-se prisioneiro dela. 
A dor pode virar um vício. 
Uma grande justificativa. 
Uma explicação respeitável. 
O inferno consentido. 
Um destino e não um caminho. 
O tumor alimentado com diligência. 
O veneno tomado solenemente.

A dor que não é doença tem 
prazo de validade. 
Cumpre um ciclo. 
É percurso, 
mal necessário, 
remédio amargo. 
Expurgo. Esconjuro. 
Depuração.

Quando ela 
acaba deixa um vazio, 
um descampado que será 
aos poucos inundado pela 
sua alma alargada, 
reintegrada que se espalhará 
como maré alta e tudo contemplará.

As grandes dores parecem inesgotáveis, 
insaciáveis. 
Mas mesmo as dores indizíveis, 
aquelas das perdas impronunciáveis, 
as dores abissais que 
contrariam as leis da vida, 
mesmo essas um dia passam. 
Param de fisgar, 
de sangrar. 
Cansam, aquietam. 
Libertam-se de nós e 
viram cicatrizes, 
marcas, tatuagens.

É comovente e belo trazer 
no corpo e na alma as marcas das 
dores bem vividas. 
Nada mais natural que fazer 
as pazes com nossas dores. 
Deixá-las partir sem medo. 
Lembrá-las sem sobressaltos. 
Reconhecê-las. Afinal, 
“nós também somos o que perdemos”.

Autoria: Hilda Lucas
* * * * *
Texto lido no programa
"Madrugada Viva Liberdade FM"
no quadro
"Momento de Reflexão"
no dia 22 Janeiro de 2.014.

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