terça-feira, 21 de abril de 2015

Estação das Perdas

Há horas em nossas vidas que somos
tomados por uma enorme sensação
de inutilidade, de vazio...
Questionamos o porquê de nossa existência
e nada parece fazer sentido.
Concentramos nossa atenção no
lado mais cruel da vida,
aquele que é implacável e a todos
afeta indistintamente:
as perdas do ser humano.

Ao  nascer,
perdemos o aconchego,
a segurança e a proteção do útero.
Ao perdermos o aconchego do útero,
ganhamos os braços do mundo.
Ele nos acolhe:
nos encanta e nos assusta,
nos eleva e nos destrói.

E continuamos a perder..
E seguimos a ganhar.
Perdemos primeiro a inocência
da infância.
A confiança absoluta na
mão que segura nossa mão.
E ao perdê-la,
adquirimos a capacidade
de questionar.
Por que?

Perguntamos a todos
e de tudo.
Abrimos portas para um
novo mundo e fechamos janelas,
irremediavelmente deixadas para trás.
Estamos crescendo.
Nascer, crescer, adolescer,
amadurecer, envelhecer, morrer,
renascer(?)...
Vamos perdendo aos poucos alguns
direitos e conquistando outros.
Perdemos o direito de
poder chorar bem alto,
aos gritos mesmo,
quando algo nos é tomado
contra a vontade.
Perdemos o direito de dizer
absolutamente tudo que nos passa
pela cabeça sem medo de
causar melindres.

Estamos crescidos e nos
ensinam que não devemos
ser tão sinceros.
E aprendemos...
E vamos adolescendo...
 Ganhamos peso,
ganhamos pêlos,
ganhamos altura...
Ganhamos o mundo.

Neste ponto, vivemos em
grande conflito.
O mundo todo nos parece
inadequado aos nossos sonhos...
Ah!
E os sonhos!!!
Ganhamos muitos sonhos.
Sonhamos dormindo,
sonhamos acordados,
sonhamos o tempo todo.
Aí de repente, caímos na real!
Estamos amadurecendo...

E continuamos amadurecendo...
Ganhamos um carro novo,
uma companheira,
ganhamos um diploma.
E desgraçadamente perdemos
o direito de gargalhar,
de andar descalço,
tomar banho de chuva,
lamber os dedos...

Já não pulamos mais no
pescoço de quem amamos e tascamos
aquele beijo estalado...
Mas,
apertamos as mãos
de todos,
ganhamos novos amigos,
ganhamos um bom salário,
 ganhamos reconhecimento,
honrarias,
títulos honorários e a chave da cidade...
E assim,
vamos ganhando tempo...
Enquanto envelhecemos.

De repente percebemos que
ganhamos algumas rugas,
algumas dores nas costas (ou nas pernas),
ganhamos celulite,
estrias,
ganhamos peso...
E perdemos cabelos.
Nos damos conta que perdemos
também o brilho no olhar,
esquecemos os nossos sonhos,
deixamos de sorrir...
Perdemos a esperança.
Estamos envelhecendo.

Não podemos deixar pra fazer
algo quando estivermos morrendo...
Afinal,
quem  nos garante que
haverá mesmo um renascer?

Exceto aquele que
se faz em vida,
pelo perdão a si próprio,
pelo compreender que as perdas fazem parte.
Mas,
que apesar delas,
o sol continua brilhando
e felizmente  chove de vez em quando.
 Que a primavera sempre chega após o inverno,
 que necessita do outono que o antecede...

Que a gente cresça e não
envelheça simplesmente...
Que tenhamos dores nas costas
e alguém que as massageie...
Que tenhamos rugas e boas lembranças...
Que tenhamos juízo mas mantenhamos
o bom humor e um pouco de ousadia...
Que sejamos racionais.
Mas,
lutemos por nossos sonhos...
E, principalmente,
que não digamos apenas eu te amo.
Mas,
ajamos de modo que aqueles
a quem amamos,
sintam-se amados mais
do que saibam-se amados.
Afinal,  o que é o tempo

TEXTO DE: Aila Magalhães
* * * * *
Texto lido no programa
"Madrugada Viva Liberdade FM"
no quadro
"Momento de Reflexão"
no dia 24 de Abril de 2.015.
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