terça-feira, 23 de junho de 2015

SOBRE O TEMPO QUE GANHAMOS

Havia mais terrenos baldios.
E menos canais de televisão.
E mais cachorros vadios.
E menos carros na rua.
Havia carroças na rua.
E carroceiros fazendo
o pregão dos legumes.
E mascates batendo
de porta em porta.
E mendigos pedindo
pão velho.

Por que os mendigos não
pedem mais pão velho?

A Velha do Saco
assustava as crianças.
O saco era de estopa.
Não haviam sacos plásticos,
levávamos sacolas de palha
para o supermercado.
E cascos vazios para
trocar por garrafas
cheias.
Refrigerante era caro.
Só tomávamos no
fim de semana.
As latas de cerveja
eram de lata mesmo,
não eram de alumínio.
Leite vinha num saco.
Ou então o leiteiro
entregava em casa,
em garrafas de vidro.
Cozinhava-se com
banha de porco.
Toda dona de casa
tinha uma lata de
banha debaixo da pia.
O barbeador era de metal,
e a lâmina era trocada
de vez em quando.
Mas só a lâmina.
As camas tinham suporte
para mosquiteiro.
As casas tinham quintais.
Os quintais tinham sempre
uma laranjeira,
ou uma pereira,
ou um pessegueiro.
Comíamos fruta no pé.
Minha vó tinha
fogão a lenha.
E compotas caseiras
abarrotando a despensa.
E chimia de abóbora,
e uvada,
e păo de casa.

Meu pai tinha um amigo
que fumava palheiro.
Era comum fumar
palheiro na cidade;
tinha-se mais tempo
para picar fumo.
Fumo vinha em rolo
e cheirava bem.
O café passava pelo
coador de pano.
As ruas cheiravam
a café.
Chaleira apitava.

O que há com as chaleiras
de hoje que não apitam?

As lojas de discos vendiam
long plays e fitas K7.
Supimpa era ter um três em um:
toca disco,
toca fita e rádio AM (não havia FM).
Dizia-se 'supimpa',
que significa 'bacana'.
Pois é,
dizia-se 'bacana',
saca?
Os telefones tinham
disco.
Discava se para alguém.
Depois,
punha se o aparelho
no gancho.
Telefone tinha gancho.
E fio.
Se o seu filho estivesse
no quarto dele e você
no seu escritório,
você dava um berro
pra chamar o guri,
em vez de mandar
um e-mail ou um recado
pelo MSN ou Watsapp.

Estou falando
de outro milênio,
é verdade.
Mas o século passado
foi ontem!
Isso tudo acontecia
há apenas 20 ou 25 anos,
não mais do que o
espaço de uma geração.
A vida ficou muito melhor.
Tudo era mais demorado,
mais difícil,
mais trabalhoso.

Então por que
engolimos o almoço?

Então por que estamos
sempre atrasados?

Então por que ninguém
mais bota cadeiras
na calçada?

Alguém pode me explicar
onde foi parar o tempo
que ganhamos?

TEXTO DE: Marcelo Canellas, Jornalista.
* * * * *
Texto lido no programa
"Madrugada Viva Liberdade FM"
no quadro
"Momento de Reflexão"
no dia 25 de Junho de 2.015.
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