sexta-feira, 1 de abril de 2016

SOBRE A VELHICE

Por oposição aos
gerontologistas,
que analisam a velhice
como um processo
biológico,
eu estou interessado
na velhice como
um acontecimento
estético.

A velhice tem
a sua beleza,
que é a beleza
do crepúsculo.

A juventude eterna,
que é o padrão estético
dominante em
nossa sociedade,
pertence à estética
das manhãs.

As manhãs têm
uma beleza única,
que lhes é própria.
Mas o crepúsculo
tem um outro tipo
de beleza,
totalmente diferente
da beleza das manhãs.

A beleza do crepúsculo
é tranquila, silenciosa
– talvez solitária.

No crepúsculo tomamos
consciência do tempo.
Nas manhãs o céu é
como um mar azul,
imóvel.

No crepúsculo as
cores se põem
em movimento:
o azul vira verde,
o verde vira amarelo,
o amarelo vira abóbora,
a abóbora vira vermelho,
o vermelho vira roxo –
tudo rapidamente.

Ao sentir a passagem
do tempo nos apercebemos
que é preciso viver
o momento intensamente.
Tempus fugit
– o tempo foge – portanto,
carpe diem – colha o dia.

No crepúsculo sabemos
que a noite está chegando.

Na velhice sabemos
que a morte está
chegando.
E isso nos torna
mais sábios e nos
faz degustar cada
momento como
uma alegria única.

Quem sabe que está
vivendo a despedida
olha para a vida com
olhos mais ternos...

TEXTO DE: Rubem Alves
* * * * *
Texto lido no programa
"Madrugada Viva Liberdade FM"
no quadro
"Momento de Reflexão"
no dia 04 de Abril de 2.016.
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